Alguém anotou a placa? (Natal com Graves)

Tenho tentado não reclamar. Tentando não preocupar. Fazendo todo o esforço do mundo pra não desesperar. E se possível, me esforçando por não pensar. Em quase todos os quesitos, falhando miseravelmente.

Todo fim de ano é a mesma coisa. Pra mim e pra todo mundo. São centenas de pequenas (e não tão pequenas assim) decisões e ações que precisam ser tomadas e feitas em tempo hábil. São coisas que precisamos lembrar, resolver e tickar numa check list interminável todo santo fim de ano.  Em alguns anos mais que em outros, há também prenúncio de grandes mudanças (boas ou más) para o ano que se segue, que geram um stress adicional, e coisas adicionais para serem lembradas, resolvidas, apagadas da lista imaginária de ‘to do’ antes do ano acabar.  Em casa, no trabalho, na escola dos filhos, no relativo ao inferno dos presentes de natal, e em tantas questões,  todos nós somos sugados todos os dezembros, pra dar conta de coisas que com ou sem nossa interferência irão começar a tomar rumo e, se a gente deixar, nos atropelar sem dó ou piedade caso não tenham um X na check list imaginária.  Eu, a torcida do flamengo, a torcida anti-flamengo e todos os indiferentes de plantão.

Talvez seja por isso que tenho feito esse esforço de não reclamar. Mas a experiência de equilibrar as decisões normais de fim de ano somadas ao stress de mudanças drásticas na minha vida profissional e ao fim de ano escolar das crianças (seguido do próximo começo), já eram suficientemente ruins sem Graves. Com, tem sido torturante.

Lembro do que fazer nos momentos mais inoportunos. Anoto tudo. No fim das contas, no momento de fato oportuno, esqueço de olhar o que anotei. Fico paralisada frente a certas decisões. Acho quase tudo maior que minha capacidade. Tento delegar algumas tarefas mais simples. Não é feito, eu tenho que fazer, eu esqueço de fazer ou como se faz.  Passo o dia inteiro com essa sensação horrível de que eu podia estar fazendo algo pra resolver ao menos uma coisinha que fosse, e não sei que coisa é essa, como fazê-la, e a sensação persiste. Paro, respiro, tento organizar meus pensamentos, tudo parece tão overwhelming , tão avassalador, dos enfeites de natal a onde meus filhos vão estudar ano que vem, do que vou fazer na ceia até como vou lidar com estar desempregada ano que vem, da obra em minha casa até se eu tenho roupa pra ir em tal ou qual evento, do se alguém lembrou de encomendar salgados pra festinha da escola até o arrumar forças pra estudar matématica com o filho pendurado precisando de nota, do presente pros amigos ocultos até o como eu me controlo pra não surtar.

Nada disso está sendo vivido pela primeira vez. Mesmo os eventos mais grandiosos são uma réplica do ano passado de forma tão gritante que chega assusta. No fim, esse ano se encaminhou em outra direção, mas resumindo, é o fim do ano passado ‘all over again’, tudo de novo, igualzinho, sem tirar nem pôr (minto, em vez de obra em casa era mudança pra outra casa).  Mas eu estava bem de saúde ano passado. Quando eu ameaçava surtar, eu sabia de onde vinha isso, qual o evento que estava despertando isso, como contornar, de onde tirar forças pra resolver do mais básico nas decisões pré-natal até as grande resoluções de vida pro ano seguinte.  Eu estava bem. Eu não estou mais.

Surto em silêncio o dia todo. Me desespero em silêncio o dia todo.  Sou levada pelas coisas ao invés de levá-las.  Os dias passam sem eu ter resolvido uma única coisa, e nos poucos dias que resolvo algo, o simples resolver desencadeia uma série de novas coisas a serem feitas, e eu travo. E eu tento não reclamar. Tento não preocupar. Faço todo o esforço do mundo pra não desesperar. E quando possível, me esforço pra não pensar. Em quase todos os quesitos, falho miseravelmente.

E em resultado disso, meu corpo dói. Um cansaço de eras. O dia inteiro com os olhos fechando num sono imenso. A noite toda com os olhos esbugalhados, sem sono nenhum. Minto, sinto um sono abissal às 9 da noite. Aviso a todos que vou dormir e o mundo pode se acabar. Então me lembro de algo que precisa ser feito inadiavelmente, e a madrugada me encontra insone, invariavelmente, todos os dias.

E eu só sinto vontade de sumir. Ou processar o caminhão que me atropelou nesse fim de ano. Alguém anotou a placa?

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3 respostas a Alguém anotou a placa? (Natal com Graves)

  1. Y diz:

    Surto em silêncio aqui tb. 😉
    Mas ó, hoje eu mudei meus emails todos para caírem em 1 só. 😀

    São as pequenas coisas que me salvam.

  2. Fiz isso antes de ficar doente, agora eu surto com as centenas de mails diários e sem dar conta deles…

    anyway, nem as pequenas coisas. Ontem finalmente tickei algo na lista imaginaria, e como mágica surgiram outras 30 coisas em decorrência dessa já feita. Senti uma vontade incontrolável de chorar e me esconder no colo da minha mãe.

    Acho que foi por isso que sonhei com minha vó hoje, já de manhã, quando finalmente consegui dormir.

    Tô precisando de colo. Mas ando uma criatura tão mal humorada e tão insuportável que tenho medo de pedir colo e levar um fora.

    Tá foda.

  3. flávia diz:

    há dois anos descobri que tinha hashimoto mas não podia tomar nenhum remédio pois só os anticorpos estavam alterados. então até o meio do ano de 2010, sofria de insonia, taquicardia, inchaço facial e n outros problemas, mas não podia tratar. até que em agosto após um sangramento enorme nas fezes, meus exames indicaram um hipertireoidismo. comecei a tomar tapazol, dose alta e sofri muito mais. Meus olhos inflamaram, piscava muito e não podia com luz por um mês, aí tomei corticoide por 20 e poucos dias, ganhei cinco quilos em uma semana, parei antes do natal e os olhos melhoraram. Hj estou tomando uma dose de tapazol e atenolol ,os exames indicaram melhora, mas ainda não melhorei…tem dias que parece que colocaram um balão no lugar do meu rosto,etc e tal. fiz exames para eliminar problemas na hipofise, estou aguardando os exames, acho que não vai dar nada, pois não estou muito acima do peso. entendo vc, vc me entende, mas as outras pessoas não conseguem aceitar que não existe cura rápida, que não faço manha, que o médico não tem culpa…é difícil demais, mas estou otimista. depois do resultado dos últimos exames te falo.vc passava mal com lactose ou café? abraços

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