Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Eu comentava outro dia que eu estava reagindo de forma estranha frente à minha vida. As vezes eu me desesperava com algo (e esse fim de ano teve quilos de coisas com as quais me desesperar) e por alguma razão, logo depois, o desespero parecia uma lembrança distante, algo que aconteceu com alguém, que não me afetava diretamente.

Mesmo quando eu sabia por fato que me afetava sim, eu parecia não ligar. Eu tentava acionar o gatilho do ‘se desespera mulher, e se move pra resolver’ mas o dia virava noite e depois dia de novo e eu não me lembrava muito bem do quanto as coisas tinham me afetado, ou pior, deveriam me afetar.

Não que eu tivesse deixado de sentir as coisas de forma passional e visceral como é minha principal característica. Eu ainda era a Madame Drama a maior parte do tempo. Mas em vez de uma longa peça, subitamente passaram a ser pequenas esquetes. Eu ia lá, tinha meu momento Drama Queen, e simplesmente esquecia.

Difícil explicar. Mesmo. É como assistir um filme e me envolver com o enredo. Algo acontece e eu fico tocada/nervosa/preocupada/com medo ou o que quer que o filme motive. Mas aí mudo de canal, e tenho que forçar a mente pra lembrar do que era o filme. Mas na verdade, não era um filme, era eu vivendo. A intensidade não mudou, apenas o tempo de fixação nela e o grau de apego às preocupações diárias. Tudo que aconteceu de 5min pra trás, agora é passado, literalmente falando, e me dá a sensação que aconteceu ao vizinho e não comigo. Se não está acontecendo AGORA, estou meio que anestesiada pro que quer que seja.

Sem contar o fato de que minha memória virou a de uma ameba, ou sei lá que bicho não tem memória nenhuma. Esqueço onde ponho as coisas, esqueço o que tenho que fazer, esqueço o que estava falando, esqueço o nome das pessoas próximas como família e colegas de trabalho, esqueço de tomar o remédio, esqueço onde coloquei o remédio ou se já o tomei, esqueço de tudo. Estou tendo uma prévia da minha senilidade por vir. Não está num lugar inacessível ou coisa assim: eu forço a mente e as coisas voltam, às vezes mais rápido, às vezes mais devagar, mas acabam voltando. Está tudo lá, mas é como se meu cérebro tivesse um novo rol de coisas importantes como respirar e manter a calma, e relegasse TUDO, absolutamente tudo ao segundo plano, em uma gaveta empoerada num canto obscuro da minha mente.

As pessoas me cobram coisas que eu não lembrava que era pra eu fazer, ou que comecei a fazer mas sumiram da minha mente em algum momento. E eu fico pra lá de irritada tanto comigo quanto com a falta de compreensão alheia, mas, surpresa, surpresa, 5 min depois já nem lembro que fiquei irritada , o quanto fiquei irritada ou porque era.

Tudo isso compõe a sensação que já citei aqui, de estar sobrecarregada, sendo exigida ao limite. Não é bem que haja coisas demais para serem feitas, mais do que somos capaz, doentes ou sadios, de dar conta. Mas é que é difícil dar conta do dia-a-dia se a gente não lembra do que há pra ser feito, e no fim, tudo fica sem fazer caindo sobre nossas cabeças e  fica difícil entender o motivo.  Mas se eu tivesse me lembrado da tarefa na hora normal, como todo mundo é supostamente capaz de lembrar, eu a teria feito ou ao menos iniciado o processo de fazê-la, ao invés de acabar deixando de fazer uma segunda coisa que ainda me lembro e uma terceira que eu nem me lembrava, pra fazer a primeira quando a memória dela me chega já em cima da hora limite daquele problema ser resolvido.

Resumindo? Perdi o controle do meu grau de envolvimento com meu cotidiano. Em todos os sentidos possíveis. Conto com a agenda do meu celular pra me lembrar do que é realmente imprescindível lembrar, e o resto, aceito o fato de que já esqueci. Todos os dias antes de dormir, faço o exercício mental de relembrar meu dia o mais vividamente possível, por pior que ele tenha sido, simplesmente porque ainda me incomoda o desapego inerente a minha falta de memória, e porque se houver algo importante a ser lembrada, preciso anotar como se fosse a última chance. E nada disso fazia nenhum sentido, até o link que a Ynara mandou.

Uma pílula para esquecer? (em inglês)

É fato que não tomo propanolol, e sim atenolol, que tem uma concentração no cérebro muito mais baixa, já que diferente do propanolol, o atenalol não tem como característica a facilidade de cruzar a barreira hematoencefálica. Mas ambos são beta-bloqueadores com as mesmas características básicas, e isso pode explicar muitas coisas.

É que o propanolol está fazendo parte de um estudo para entender como nossas memórias funcionam, e a capacidade de interferir em sua solidificação em nosso cérebro (transformando-as em definitivas e fortes ao invés de passageiras e ou fracas). Tem sido usado num estudo clínico com pacientes que sofreram de stress pós-traumático para transformar essas lembranças do stress em questão em algo menos sofrido e  menos recorrente nos pacientes. Nada ainda de definitivo, já que não se sabe ainda quais pacientes tomaram propanolol e quais tomaram placebo, e qual a eficácia real do beta-bloqueador na fixação da memória, mas o simples fato de alguém estar cogitando isso significa que já foram relatados casos de baixa-fixação ou pouco apego à lembranças usando beta-bloqueadores, em especial, propanolol.

É pra se pensar. Somos todos nós, pacientes com hipertireoidismo, hipertensão e afecções cardíacas tratados com beta-bloqueadores, personagens incidentais de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança. E nem escolhemos esquecer. No que isso tem de bom (tem gente que preferia esquecer de um sem número de coisas) e no que isso tem de ruim (eu sou muito apegada emocionalmente às minhas lembranças), nossas memórias não são mais nossas no que diz respeito a lembrar ou esquecer…

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2 respostas a Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

  1. nilda diz:

    eu tenho hipertirioidismo e tomo propanolol ,sera que vou perder a memoria ? Quanto tempo leva pra melhorar o olho? Vou engordar muito? Tenho tantas duvidas…por favor alguem me ajuda?

    • Nao. O efeito não é assim. Afeta a retenção, ou melhor ainda, a significância da retenção, mês não é assim.

      O olho veja a parte, procure um oftalmo, mas se a exoftalmia já começou, converse com seu endócrino.

      Pode não engordar nada, pode engordar muito, isso não é linear nem culpa da medicação…

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