“Aceitância”

Pelos próximos dias não haverá rotina. Nem adianta procurar ou reclamar. E não há de se querer que esses dias tortos virem a sua rotina, então, mudemos de assunto.

Pelos próximos dias não haverá tranqüilidade. Exceto talvez por colocar trema em tranquilidade me dando essa falsa impressão do conhecido e da segurança denegando mudanças. Todo o resto será gerenciamento de caos.

Em tendo dito isso, tomo meu atenolol e espero meu coração voltar a bater como se espera dele, e eu, da minha parte, espero, não em ansiosa busca, mas em complacente espera. Espero. Só espero.

Exercito manter a mente vazia. Nenhum pensamento em especial. Nenhum pensamento em geral. Sem pensamentos. Nenhum. Aceito minha total e completa incompetência para gerenciar o alheio, para conduzir a entropia, para montar algo com esses trechos de insanidade como se fossem peças de lego. Vai passar.

De um jeito ou de outro. Com um ou outro desfecho. A despeito do meu desejo, independente da minha necessidade por controle, apesar do meu desespero. Simplesmente vai passar. E sabendo que somos condenados e culpados de antemão pelo que fazemos e simultaneamente pelo que não fazemos, opto pelo não fazer. Por sentar a beira desse rio e esperar pra ver o que ele trás, pra onde vai, se irá me levar junto ou só passar por mim.

Sei também que essa decisão é frágil e me escapará não uma, mas incontáveis vezes até o desfecho. Que em algum momento meu corpo traídor e auto-sabotador irá me dizer pra reagir em desespero e fúria frente ao que já admiti me escapar do controle; sei que em dados momentos tremerei, gritarei, chorarei, e serei insana de carteirinha assinada esperando o trem que vai pra Barbacena… Mas em outros, serei assim, plácida e contemplativa, ligeiramente infeliz frente aos acontecimentos que me rodeiam, esperando que o caos tome seu rumo, e a rotina se reestabeleça.

Porque em mim tudo é esse turbilhão. E quem eu quero enganar? Sempre foi. E agora, porque meu corpo é meu Judas, mais ainda. E se eu me entrego a essa sensação de perda e desespero, de descontrole e dúvida, estarei um passo a frente na criação de mais motivos para perda, desespero, descontrole e dúvida.  Então não há acordo. Não há negociação. Aceito o caos, denego o desespero. Aceito o incontrolável, denego a angústia. Aceito que o rumo dos próximos dias não passam pelo meu desejo, mas não aceito que isso me defina. Não mais. Não mais…

Estou indo cuidar da minha vida na parte dela que ainda tenho algum controle. E estou indo ver de fora, em experiência-extra corpórea e tentando não prestar muita atenção, tudo aquilo que eu não tenho inferência. Porque não tenho nenhum interesse em ir parar num leito de hospital, no quarto ao lado de onde minha mãe está.  E porque no fundo, confesso em letras miúdas e voz sussurrada, sempre achei que o primeiro passo pra mudar o imutável era aceitar. Então aceito, e vamos ver onde isso vai me levar…

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