Em que planeta estamos? (Desinformação digital)

A internet é algo especial. Mesmo, sem cinismo ou ironia. Ouvi em algum lugar que com o advento da internet ninguém precisa mais estar sozinho.Haverá sempre alguém como você para trocar idéia, alguém que você não conheceria das formas convencionais. Há também a capacidade de informar e difundir informação. Outro dia minha irmã, que é totalmente analfa-micro, fez um discurso fabuloso a favor das mídias sociais e da capacidade de funcionar como difusor da informação, sistema de aprendizado e capacitação e acima de tudo, como meio de ajuda mútua. Não é preciso estar na internet pra entender as maravilhas que essa tecnologia fez ao mundo. Mas pra todo ponto há um contra-ponto.

A internet também é o lar da impunidade, do comentário maldoso protegido atrás do teclado, da dissiminação de contra-informação e ignorância, da proliferação do preconceito legitimado pelo encontro com outros que pensam igual, do ambiente propício pro disseminar de lendas urbanas, da desinformação disfarçada de informação e respaldado por um design bonito, a legítima terra de ninguém. E de tempos em tempos, basta uma pesquisa básica para nos mostrar que é isso mesmo. Tudo que a internet tem de bom ela tem de ruim, em igual medida e em sentido contrário. Pura física. Ação e reação.

Eu tento me responsabilizar pelo que falo aqui. Procuro deixar claro que as informações presentes nesse site fazem parte da minha experiência pessoal, são a minha visão dos fatos, não substituem a opinião de um médico, ou a certeza de um exame laboratorial. Quando falo de um “mal” comportamento meu, deixo claro que é um péssimo exemplo, falo das consequências que sofri ou posso vir a sofrer com isso. Cito fontes. Reproduzo conteúdo tão somente quando corroborados pelo que pessoalmente ou por fontes fidedignas sei que, se não fato, ao menos se aproxima de ser fato. Coloco ACHO na maior quantidade de comentários que posso, pra mostrar que é apenas e tão somente a minha opinião. E acho que não é uma opção pessoal minha, mas minha obrigação quando me propus a vir aqui gerar conteúdo, ainda que o motivo original tenha sido um espaço pra reclamar da minha doença e desabafar sem entupir os ouvidos de quem convive diariamente comigo. Quando eu gero conteúdo, preciso me responsabilizar por ele, em algum nível, é o meu conteúdo…

Não sei se dei muito azar nas pesquisas que estava fazendo ontem, ou se antes não tinha prestado atenção em certas informações, ou se antes via e ignorava. Engraçado, mas não sei mesmo. Só sei que ontem, pesquisando pra coletar mais informações pra dividir por vocês, cai nos mais estranhos sites do planeta. Em especial, 2 tipos:

* Sites pseudo-sérios que terminavam textos pseudo-técnicos com “entregue nas mãos de deus porque só ele salva”.
Eu sou uma pessoa de fé. E eu defendo a fé. Na minha crença pessoal, não importa muito fé no que, mas fé em si tem um potencial agregador imenso, e quase literalmente move montanhas. Mas fé não cura. Fé não substitui droga-antitireoidiana. Fé não substitui ida ao médico. Fé não resolve  sozinha o dilema de conviver com os sintomas de uma doença. E pregar fé em um texto que se pretende informativo é algo extremamente complicado. E se eu não tiver fé? Vou cair durinha e morrer?
Posso parecer estar exagerando. Aqui mesmo a gente já caiu nos comentários em coisas como é preciso ter fé, ou é preciso rezar, ou tenho fé que deus vai prover… mas aqui a gente estava comentando. Eu não expliquei o que era a doença e depois disse: Mas lembre-se que deus há de te salvar. Isso é pensamento mágico, que alias, é sintoma, não solução. E pra provar meu ponto, em resposta ao texto pseudo-informativo, as respostas eram comentários que retiravam a responsabilidade da melhora da pessoa em questão e colocava nas mãos de deus. Não vou me preocupar com o remédio que tomo, ou na alimentação que tenho, porque deus há de me salvar.
Fiquei com vontade de comentar algo… de dizer que deus, se é que há um, salva, se há o que ser salvo, quem faz por onde, mas fiquei com medo de ser excomungada virtualmente (não que isso realmente me afete) e taxada de anti-cristo.
Nada contra deus. Nada mesmo. Mas o pobre do tal do deus não tem nada haver com isso.
E concordo que as pessoas tem todo o direito de expressar suas crenças, de usa-las como sistema de apoio para atravessar momentos de crise e ter fé que seus esforços serão conhecidos e recompensados por uma força maior. Isso eu respeito. Agora isso não nos dá o direito de oferecer uma informação associada de maneira indissolúvel a uma crença. Porque são duas áreas do saber/sentir que pertencem a esferas diferentes, e podem  atése complementar, mas não se substituem e  nunca deveriam se sobrepor de forma a uma delas exigir domínio sobre uma área a qual não oferece a real solução. A medicina não vai me levar pro paraíso. A fé não vai curar minha doença. Mas a fé pode me ajudar a enfrentar um tratamento médico e a medicina pode lançar luz sobre mistérios da fé. É isso ou vamos todos parar de nos medicar e ficar esperando por milagre. Não acontecerá e eu vou pagar caro por ter acreditado nisso. Mas queria ver alguém responsabilizando quem disse que era pr’eu parar de me preocupar e entregar na mão de deus! No mínimo vão me dizer que não tive fé o bastante e por isso não fiquei boa…

* Sites pseudo-sérios com textos pseudo-técnicos defendendo técnicas/soluções de natureza duvidosa e/ou com sistema de comentários não moderados onde milhões de desinformações correm soltas sem ninguém pra dizer “não é bem assim”, “isso é perigoso”, “isso não é comprovado”, etc…
Num deles quase tive uma síncope. Uma leitora comentava que tinha hipertireoidismo e tomava sibutramina pra emagrecer. Ai eu cito, tipo assim, só de passagem, que sibutramina tem algumas  muitas contra-indicações, o que significa que NÃO DEVE SER TOMADO, e uma delas, qual é, qual é? pois é, hipertireoidismo. E ninguém, seja o gerador do conteúdo, seja outro leitor, teve o bom senso de perguntar se leu bem, se aquela pessoa estava ciente da merda que estava fazendo. Ao contrário, só faltaram perguntar se ela estava emagrecendo direitinho…
Esse culto ao baixo peso já foi longe demais. Estamos criando uma geração de bulímicas, anoréxicas, e inclusive, adolescentes com hipertireoidismo por estimular excessivamente o aumento do metabolismo na tentativa insana de emagrecer. E a internet é o palco primordial desse circo dos magérrimos wanna be. E ninguém fala nada. E ninguém se manifesta… nesse eu até tentei comentar, mas minha internet ficava caindo. Acho que até ela se incomodou de me ver lendo aquilo.
Ok, eu mesma costumo defender que um gerador de conteúdo não é responsável pela opinião de quem comenta, mas sei lá, não podia apenas pontuar, já que era numa matéria que falava da sibutramina, que aquilo não era indicado? Cai no site procurando por outra coisa, e como eu, outras pessoas caem lá procurando sei lá pelo que. Pessoas de um modo geral não leem bula (o que não é uma desculpa pra esse comportamento, mas é uma constatação). Pessoas querem soluções rápidas e mágicas. Pessoas estão desesperadas numa cultura que prega o irrealizavel (ao menos, não passível de ser realizado sem a perda de no mínimo a saúde). Eu posso até não ser responsável por elas, mas será que não sou responsável por passar uma idéia errada à elas, ou por não me posicionar contra o que é sabidamente perigoso?
Essa história deu ter mudado o formato do “o povo pergunta, a gente responde” veio um pouco daí. Eu não tenho responsabilidade sobre a pesquisa que fazem e caem no meu site. Mas se vejo uma pergunta do tipo “posso parar de tomar meu remédio pra hipertireoidismo?” ou “posso tomar remédio pra hipotireoidismo pra emagrecer?” e eu sei que as consequências disso são graves, há uma certa obrigação não legal, mas moral, de fazer a minha defesa de posição do quanto isso é errado/perigoso/desaconselhável , de dividir meu conhecimento, de dissipar dúvidas e desinformações. Tudo isso enquanto geradora de conteúdo e formadora de opinião que eu sou, e todos nós somos. Quando nos colocamos a favor ou contra alguma coisa, ou nos eximimos de nos manifestar a respeito, estamos formando opinião, quer queiramos ou não essa responsabilidade sobre nós.

Mas isso não é tudo. Os exemplos se proliferam pra quem quiser procurar. É desinformação pra todo lado que você olha!

Cresci sem internet. Meu primeiro contato com ela, em seus primórdios e limitadas a grandes empresas e instituições de ensino e pesquisa, foi na faculdade. Quando a internet se tornou pública no Brasil e já tinha 2 filhos. Talvez o fato de não tê-la tido e passar a ter, me deu a exata noção de seu potencial de uso, da sua importância, e acima de tudo, da responsabilidade que vem anexado a isso. Já meus filhos são da geração online. Meu mais velho tinha 5 anos quando passei a ter internet em casa. O do meio 1 ano e a mais nova já nasceu com a família online. Novamente, talvez o fato de que seus pais aprenderam a usar a internet junto com eles e tem no discurso a informação de que nem sempre ela esteve aí, e que é um benefício a ser usado com discernimento e moderação, dê a eles uma certa noção de que internet não deveria ser terra de ninguém e que o que se aplica ao mundo “real” deve se aplicar ao mundo virtual. E sabem também que não podem confiar em tudo que encontram na internet. Mas muita gente não teve isso, cresceu achando que a internet sempre esteve aí, não são capazes de discernir informação de  desinformação, de separar o joio do trigo, e também não entendem as implicações de um mal uso da mesma e a usam como acham que deve ser usada, pra entretenimento pessoal, pura e simplesmente, sem nenhuma responsabilidade pessoal ou social que deveria vir junto com essa inserção.

Posso não ter crescido com internet, mas trabalhei com ela ou dependendo dela ou relacionado a ela por toda a minha vida adulta. E ainda assim, de vez em quando, ela me assusta. Talvez ela não seja muito diferente do mundo real. Talvez eu tenha uma ilusão de que no mundo real somos em algum nível obrigados a arcar com as responsabilidades dos nossos atos, das nossas palavras e das opiniões que emitimos (ou ignoramos). Mas iludida ou não, me assusta a proliferação da desinformação digital. E a impunidade com que ela se propaga.

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7 respostas a Em que planeta estamos? (Desinformação digital)

  1. Joana diz:

    Dri, você está perfeitamente certa nos comentários. Já li cada matéria que até eu na minha santa ignorância fico pasma de saber que há pessoas que perdem o seu maravilhoso tempo e penso que são pessoas sãs em escrever ou então estão passando pelas mesmas situações que nós e não sabem em alguns momentos o que estão escrevendo ou dizendo, ou seja se estão sendo coerentes.
    E o povo pergunta, ” você já teve medo de conversar com as pessoas e estar sendo “ridícula” ou começar a conversar e esquecer o que estava conversando ou não conseguir completar o pensamento e por isso mesmo se sentir “ridícula”? eu estou passando por isso, sinto que tenho medo de falar, de não poder completar o que penso.

    Estou em muitos momentos preferindo a solidão. E olha que eu adorava gente, adorava conversar, adorava falar muuuito. Não estou confundindo com depressão porque aquele imenso vazio não existe dentro de mim, nem aquela tristeza profunda, será que tudo isso é hiper ou tapazol ou propanolol? Esses questionamentos as Dras só dizem que sim.

    Fui na gineco porque estava com uns nódulos nos seios e muitas dores e fiz os exames que tinha que fazer e novamente é por causa do hiper. Eu fui há 6 meses atrás. Será que é? a medicina está tão avançada assim para não estudarem sobre essa doença, ou ela não é tão importante para a classe médica ou para a população? Estou ficando revoltada de ser a sorteada, tudo que é genético eu sou a portadora na minha família, eu sou a recessiva, A minha visão está piorando cada vez mais e não há o que ser feito, estou engordando cada vez mais e não há o que ser feito, as manchas reapareceram e não há o que ser feito, a minha fome é imensa ( fico com vergonha porque o meu marido reclama que como demais, acho que vocês passam por isso) minha memória está um fracasso. Meus cabelos parece palha de aço, minhas unhas se descamam com o vento. Meus pés incham fico que nem uma pata. Minhas mão suam.
    Chega.

    • Sei bem como é tudo isso…
      As vezes até acho que tenho sorte. Os cabelos diminuiram a queda, ainda estão um lixo horroroso, mas diminuiram a queda e eu comemoro. Engordei depois de começar o tratamento, mas quando subo na balança e vejo que só aumentei umas gramas, comemoro. Não enxergo mais nada. O óculos é só paliativo, porque mesmo com ele é tudo meio fora de foco, e a vista arde… mas consigo ler, e comemoro. Terrivel e patético, mas últimamente comemoro com qualquer melhora, por mais pequena que ela seja.

      E quanto a vergonha de falar e não completar o pensamento, tenho não. Até porque, o cérebro é uma máquina que funciona no tranco. Quanto mais a gente exercita, menos ela atrofia… então falo mesmo que eu vá parecer louca com pensamentos desconexos, e quem não gostou é que se dane. Tenho preferido a solidão não por isso, mas por ter perdido toda e qualquer paciência com o ser humano. Em alguns dias mais do que em outros, mas definitivamente gente é um saco e eu não estou com a menor disposição de aturar..

      Tem algumas coisas que você pode tentar. Se está constrangida de ficar falando, escreva, quantas vezes for necessário, até você reconhecer um texto que tenha começo meio e fim. E faça isso constantemente. Leia, mesmo que ache que não está entendendo o que lê, repetindo o parágrafo um milhão de vezes se preciso for, até captar o sentido. Converse com sua médica sobre tomar suplemento de vitaminas (independente do que ela falar, escolha um sem iodo. Você já mencionou que ela não deu importância ao iodo nos frutos do mar, então, apesar de todo o respeito do mundo pelo conhecimento dela, eu não arriscaria tomar um suplemento com iodo). Isso vai melhorar mesmo que só um pouquinho o lance dos cabelos, unhas e até memória e raciocínio. Lembre-se que o hipertireoidismo consome todos os nossos nutrientes, então não custa dar umas vitaminas extras pro corpo!. Peça um novo exame pra ver seus níveis de T4 e T3 e TSH… como nessa fase a gente alterna sintomas de hipo e hiper e efeitos colaterais do remédio, não custa dar uma olhada e se for o caso regular melhor a dose do tapazol. Faça um controle caseiro da sua pressão arterial e dos seus batimentos cardíacos e leve isso pra médica ver na próxima consulta: se estiver bem regular, talvez ela possa reduzir a dose do propanolol e isso pode melhorar a memória… Tente (e eu sei que isso é pra lá de difícil) trocar o que você come quando a fome monstra bate por coisas mais leves ou que embora calóricas sejam de mais fácil conversão em energia, tipo gelatina e granola.. Acho que não descambei a engordar além da conta por preferir granola a sei lá, biscoito recheado e além das fibras da granola ajudarem, é calórico pra burro mas converte em energia ao invés de gordura mais fácil que um biscoito ou pão, que tendem a ter um processo mais lento na conversão pra energia. E mande o mundo pastar sempre que conseguir. Você está doente, assim como eu, e não precisa ficar preocupada com o que os outros acham disso. Essa é a parte mais difícil, eu vivo preocupada com isso, mas tento não racionalizar demais isso: não gostou? A porta da rua é serventia da casa. Ok, não quero que eles levem isso a sério, mas talvez precisem disso pra entender que eu estou assim porque estou doente, e não posso fazer nada a respeito.

      Só um adendo: esse sites que eu mencionei no artigo não tinham “ar” de terem sido escritos por pacientes, mas pro profissionais da saúde ou similar. Por isso fiquei tão chocada com o Deus cura ou com o descaso pro comentário perigoso! Acho que a gente já deve ter cuidado com a informação que divulga, que dirá um suposto médico, terapeuta, farmacêutico, ou sei lá o que eram…

  2. mel diz:

    Dri, sabe aquela vez que vc disse Dr quero minha tireoide de volta? Tou quase pedindo meu hipertieoidismo divolta. rsrs
    Meu Deus como é horrivel, me tiraram a tireoide (tudo bem eu quis eu preferi tira-la fora) mas ninguem me avisou que eu poderia passar esses tempos de zero hormonio e isso tah me matando.
    E sabe o que mais me incomoda? Os medicos tambem ñ conhecem os sintomas do hipo assim como ao hiper, eu tambem ñ até senti-los, sinto-me abandonada da mesma forma.
    Ultima quarta 21/04 feriado, tive um piripaque e fui parar na emergencia. O medico da medicina nuclear que está me atendendo disse que isso poderia acontecer, e falou se acontecer entre em contato com alguem ou venha para emergencia e vão lhe da uma dose de hormonio…o problema é que ninguem sabe ou quer fazer isso, tomei varios remedinhos um para cada sintoma e voltei para casa melhor, mas com a mesma sensação de que posso morrer e ninguem vai nem saber o porque exatamente. Procurei meu endocrino que me acompanhava a mais de um ano e ele disse “se acalme isso é pq vc tah nervosa” eu disse mas Dr eu to tremendo, com dor, cansada… se acalme e vai passar. ok fui me acalmar (ñ passou) no outro dia fui ao que fez minha cirurgia, conversar com ele contei toda a historia…ele disse que esses sintomas eu so vou sentir quando tiver entre 6 e 7 semanas sem hormonio, que agora tah cedo demais para isso…então compreendi fato1: ou ele ñ quer me da o hormonio pq ele ñ é da medicina nuclear ou fato 2: ele desconhece os sintomas assim como ao hiper do hipo e isso me leva a querer ter meu hiper divolta pq quando nada eu o conheço muito bem afinal convivemos por 10 anos juntinhos.
    Resumindo, voltei para casa com meus sintomas, esperando dia 29/04 chegar ansiosamente para receber os resultados dos exames e levar ao medicina nuclear ou ter outro piripaque e quem sabe que Deus queira ñ seja num feriado (bem ñ teremos feriado até dia 29 quii bom!)e tenha um endocrino de plantão ou meu proprio medico no hospital e me conceda gentilmente uma dose generosa e necessaria de hormonio que meu inchado, dolorido e tremulo corpo tanto pede. fim por hora.
    …continua, novela mexicana…aguardem os proximos capitulos!

    Perguntinha que não quer calar. Quando é que alguém vai ter coragem de estudar mais sobre tireoide e proporcionar um pouco mais de segurança e dignidade aos pacientes que sofrem com esses transtornos???

    • Joana diz:

      Mel li e fiquei com um engasgo na garganta e um medo que não sei o tamanho, esse questionamento que vc faz é o mesmo que eu estou me fazendo, o que percebo é que faltam estudos de fato ou nós somos muito nervosas como a as Dras sugerem ou somos “frescas” que não suportamos conviver com esses sintomas o dia inteiro e não tem quem nos socorra ou esses médicos não sabem de nada sobre hiper, sabe qual é a sensação que tenho quando digo que tenho hiper é que eles ficam com dó por não saberem o que fazer. Só em ter dois remédios e um outro como beta bloqueador percebo que os estudos são poucos e é uma doença que se não mata engorda, dos males o menor, entende?

      • Mel e Joana,

        Eu lembro quando estava grávida e tive um problema no ciático e fui reclamar com minha médica e ela só falto me chamar de fresca com todas as letras. Sai da consulta com raiva mas não quis falar nada no calor da minha irritação. Na consulta seguinte coloquei na conversa como quem não queria nada a pergunta se ela tinha filhos e ela disse que não. Perguntei se já tinha sentido dor no ciático e ela também disse que não. Ai não resisti: perguntei como é que ela sabia o que era estar carregando aquele peso todo com todos aqueles hormônios a flor da pele e sentindo dor no ciático… Ela ficou meio que com cara de quem não tinha resposta, e foi tentando dizer que havia estudos e que outras mulheres e … eu não sou um estudo. Eu não sou outras mulheres. Eu sou eu e vivo o que eu vivo. É simples assim.

        Ninguém sabe. A menos que una o conhecimento teórico (informação acadêmica + estudos de caso) e a prática (sentir na pele), ninguém sabe de porcaria nenhuma. Só acha que sabe ou só sente. não os 2 ao mesmo tempo.

        Ninguém sabe ao certo porque a tireóide surta e ataca a si mesma. Ninguém sabe ao certo o quão intensos são os sintomas. Eles pertencem a uma lista que é teórica e distante e o único termo de comparação que os médicos tem são os estudos de caso. Não costuma-se sentir tanta irritação assim. Costuma quem? Quantas pessoas? Em quaisquer situação? Eles não sabem. Não deveria ter tal o qual sintoma antes de tal ou qual acontecimento (meses de tratamento, semanas de hormônio zero, etc). Não deveria porque? Ninguém nunca teve? Qual o critério para determinar que sintoma aparece quando? Eles também não sabem.

        Ouvir do meu médico que estou sentindo isso ou aquilo porque estou muito nervosa já virou lugar comum. Ignoro. Ele acha que sabe mas dessa parte ele não tem nem pista. Está mais perdido que eu, o coitado. E esse blog é a prova viva disso. Todas as “hipertireoidetes” que postam aqui sentem ou já sentiram o que eu sinto ou coisas parecidas. A irritação, a vontade de pular no pescoço de um ou outro, a frustração, a impotência, e essa raiva velada de que ninguém fora quem está passando por isso de fato entende o que estamos vivendo. Seja no surto de hiper, seja durante o tratamento, seja depois dele.

        Quantas coisas já aconteceram comigo nos últimos 18 meses aproximadamente que os médicos olham na minha cara e falam “isso deve ser parte do quadro do hipertireoidismo, ou da doença auto-imune” e eu fico olhando pra cara deles como quem pergunta: “DEVE?” Só deve? Você não tem certeza?

        Existe um estado ideal (se é que se pode falar isso) da doença. Ela vem, tem determinados sintomas, reage de certa maneira ao medicamento ou procedimento, tem certos efeitos colaterais mais comuns, e se desemboca num hipotireoidismo, tem novos sintomas. Qualquer coisa diferente disso os médicos estão tão no escuro quanto nós. Essa é a dolorosa verdade. Eles não sabem como isso afeta a nossa qualidade de vida a não ser teoricamente falando, e não sabem todas as possibilidades que desvirtuam dessa conduta ideal da doença. É por isso que a gente tem que pesquisar também, e comentar umas com as outras pra que se acontecer conosco não seja tão inesperado, e falar e insistir com os médicos mesmo quando eles acham que estamos “nervosinhas” ou coisa parecida. A gente precisa se impor e tomar as rédeas e garantir que sejamos ouvidas, ou vamos ser tratadas como um caso hipotético que se conduz como o esperado teoricamente e estatisticamente. Quando na verdade cada uma de nós é diferente e não é só um número ou um nome em um estudo de caso.

        No seu caso Mel, infelizmente não tinha muita escolha que não a operação. E agora são novos sintomas e novos processos que você vai precisar aprender a conviver com. Péssimo? É… mas infelizmente nenhuma de nós está livre disso, de ter que tomar uma decisão específica e definitiva, e ter que conviver com o que quer que venha dela. Além de torcer pelo melhor, acredito que você vai ter que se impor pro(s) seu(s) médico(s) e perguntar claramente: SE ACONTECER X, O QUE FAÇO e não se contentar com a resposta “vai pro pronto-socorro que eles vão fazer isso ou aquilo”, porque se for a resposta final, então seu médico vai precisar escrever uma prescrição indicando o que devem fazer com você se você chegar no PS com esse ou aquele sintoma. Isso pra que você não se sinta jogada pra lá e pra cá sem ninguém resolver seu problema imediato, já que o a longo prazo a gente não tem mesmo como saber como vai se apresentar ou ser resolvido.

        Sei lá, acho, só acho, que seus médicos e você precisam chegar num acordo de como proceder, independente dos seus sintomas terem aparecido mais cedo ou mais tarde. Os sintomas estão aí e vocês tem que lidar com eles agora, né?

        Beijos e força ai pra todas nós.

  3. Joana diz:

    Bom dia, isso é muito sério, mas só para nós. Hoje depois do blog entendo a dimensão do que se passa comigo e posso não saber a teoria, mas sinto na pele todos os sintomas, e entendo mais ainda que por ser uma doença que ataca mais as mulheres, ou seja, a parte da popupação que não “produz” e isso é preconceito, porque estou na melhor da idade de produtividade e me sinto uma inútil,não consigo ler duas páginas de um livro, não consigo cuidar da casa, não consigo ter ânimo para muita coisa, enfim etc, etc, etc. Os estudos são poucos e os cuidados menos ainda,acredito que se fosse uma doença que atacassem mais os homens com certeza já teria uma solução definitiva. Ás vezes ouço frases de preconceito, como “você não consegue cuidar nem de você mesmo o que dirá de uma criança”, “você não tem disposição para fazer as coisas, mas para passar o dia na internet”, “você não tem força para lavar os pratos, mas tem força na língua”, ” você come demais” “você não se esforça”, etc, etc, etc, etc E o que fazer por nós mesmas? Pensei em procurar a Dra hoje, mas será um dinheiro jogado fora, porque já sei a resposta e ou aumentará a dose e ficarei sem o couro cabeludo ou sem os dedos das mãos e mais uma vez dos males o menor.
    Uma boa nova, consegui uma colaboradora por não dar mais conta da casa e os meus dedos estão ferindo, as unhas muito fraca e os polegares estão com uma coceira que fica inchado depois que faço um esforço ou lavo prato.
    Vamos ver se vai dar certo.
    Bom dia a todas

    • Não sei se concordo com você. Existem inúmeras doenças, piores do que a nossa (AIDS, Cancer em especial os de péssimo prognóstico, males – sérios – do coração em geral, etc) que estão aí afligir homens, mulheres, crianças… A raça humana (e a classe médica em geral) é muito prepotente, Joana, e nenhum juizo de valor nessa afirmação. Eles simplesmente acham que sabem tudo, brincam de deus, mas no fundo sabem muito pouco. Somos (o corpo humano) um imenso mistério o qual estamos apenas COMEÇANDO a compreender.

      Mas concordo na parte do preconceito. É o que já repeti aqui um milhão de vezes: que não só toda comunicação é ruído, como certos conhecimentos só são possíveis se vividos na pele… Vai algumas repostas prontas pra você dar:

      “você não consegue cuidar nem de você mesmo o que dirá de uma criança”
      Possível. Mas e aí? Vai me ajudar? Eu passo a semana toda, as vezes 2 seguidas, sozinhas com as crianças pois meu marido trabalha em outra cidade e só vem pra casa no fim de semana, e uma vez por mês, pra economizar passagem pro meu mais velho poder vir também, ele pula uma semana sem vir. Ai ele chega e diz: Você está muito impaciente com as crianças. Bom, eu respondo na lata (apesar de saber que ele se desgasta com essa coisa de viajar toda semana, que ele paga um dobrado no trabalho, etc): Pois é, estou. Pior é você, com a tireóide normalzinha, que passa a semana toda sem ter que atura-los e está sem paciência também!

      “você não tem disposição para fazer as coisas, mas para passar o dia na internet”,
      Vou passar o dia onde? Deitada na cama, me fingindo de morta (já que dormir não consigo)? Trabalhando feito gente grande pra ir parar de noite no hospital com dor muscular, esgotamento físico e taquicardia? Agachada atrás da cortina chorando? Diz aí onde é preu ficar e eu fico! 🙂

      “você não tem força para lavar os pratos, mas tem força na língua”
      Pelo menos isso, né? Já pensou se nem isso?????

      ” você come demais”
      Concordo. Tava pensando em mudar a minha dieta pra algo mais antropofágico. O que acha? Eu podia começar por você!

      “você não se esforça”
      Olha, levando em conta que há uns 60% de chances, por baixo, do meu esforço nos anos anteriores terem ajudado a desenvolver o quadro de hoje (o surgir da Graves tem relação com o stress) e que cada vez que eu me esforço mais do que o que estou me esforçando no momento eu corro sérios riscos de parar no pronto socorro, tô achando que esse negócio de se esforçar não leva ninguém a nada não…

      Tem que cortar na raiz esses comentários. O fato é que a gente não corta, a maioria das vezes só chora e sai correndo. Já falamos disso. Mas pelo menos pensar nessas respostas alivia! 🙂

      E boa sorte com sua colaboradora! Você vai ver que é uma mão na roda. Eu não seria ninguém sem a minha Anginha (o nome dela é Ângela). Se bem que nos últimos tempos tenho dividido ela com meus pais que estão precisando bem mais que eu (E olha que eu preciso dela como preciso de ar! LOL!). Amanhã por ex ela não vem, vai ficar no hospital com a minha mãe pra ajudande do meu pai ajeitar a casa e fazer comida pra amanhã e 5a na casa deles. Ai na 5a minha ajudante vem pra cá e faz comida pra 5a e 6a e ajeita a casa e a ajudante do meu pai vai ficar no hospital. Ai o pai não precisa passar o dia todo lá (ele também não aguenta, senão vai ficar internado no quarto ao lado) e as duas casas tem comida e condição de alguém entrar nelas! 🙂

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