Padecer no para o que?

Ser mãe em período integral definitivamente não é pra qualquer um. Ah, não é mesmo. Por mais cansativa que seja a tal da jornada dupla, e é uma pauleira, ao menos há alguns atenuantes.

Pra começar, você vê gente. Com todo o devido respeito ao seu marido, seus filhos, quem lhe ajuda com as tarefas domésticas, nenhum deles é gente. Quando muito é família, mas não é gente. Gente aqui nesse contexto é aquele sujeito ou sujeita que não tem os dedos sujos de liquid paper (corretivo, branquinho, ou sei lá como vocês chamam isso), canetinha e tinta guache, que tem outro assunto que não a nota da prova do filho ou o que comprar pra fazer de janta, que não tem dois pares de buracos negros no lugar da antiga olheira de balada, essas coisas, ou seja, GENTE!

Depois, cansada por cansada você ia ficar nos dois casos. Então pelo menos quando se tem a tal da jornada dupla, pode-se usar de desculpa que funciona: “Tô cansada, trabalhei o dia inteiro“. Você pode ter ficado com as pernas pro ar na mesa do escritório o dia todo, mas vão acreditar mais no seu cansaço do que se você tivesse ficado em casa, faxinado todos os banheiros, lavado, passado, ajudado no dever de casa e ainda feito a comida. Sentiram o problema? As vezes se trabalha mais em casa e … NINGUÉM NOTA. Agora experimenta deixar de fazer alguma das coisas. Vão notar na mesma hora. “Como assim não tem janta?” “Esse banheiro está um nojo!” “Mas você não viu se a menina tinha dever?” “Cadê a minha blusa azul?” … E ainda vão coroar com a frase: “Mas que diabos você fez o dia todo em casa????

Se eu for ser absolutamente franca, nem posso reclamar assim tanto nesse aspecto, já que tenho ajuda em casa (Santa Ângela do Senhor!) e já deixei claro em alto e bom som que não tenho a menor vocação pros serviços do lar. Hoje por exemplo a Ângela não vem, e já tenho calafrios em me imaginar na cozinha fazendo o almoço com hora marcada pra ficar pronto. Vou surtar de acordo. Mas tenho outros motivos preu reclamar.

Pra começar, meus filhos são uns amores, mas não estão nem aí pra hora do Brasil. E eu lá, mãe presente, tentando ajudar nos deveres de casa e eles olhando pro teto, indo 200 vezes ao banheiro, encostando no sofá e caindo no sono pesado. Até roncam…  O mais velho já está na faculdade e agora não posso “vigiar” mais, mas era igualzinho. Falou em dever eles tem até urticária. E eu tinha que coloca-los em uma escola que enche de dever de casa, né? Maldita consciência em dar importância a educação dos filhos. Na próxima encarnação, se eu não vier borboleta, vou fazer protesto na porta do conselho tutelar que esse negócio de criança na escola dá muito trabalho pra mãe! Tô brincandooooo… mas não estou. É sério, 4, 5, 10 deveres todo dia. E eles enrolando…

E se dissesse que eu não participo ou oriento, até vai lá, mas lá vou eu, a otária de plantão (Muito prazer! Tenho até borboleta no aquário nas costas pra provar como sabiamente dizia os Engenheiros do Havai!) conferir os deveres do dia no site da escola, ajudar a organizar o material, estudar o que não sei mais pra tirar dúvida, procurar coisas interessantes pra melhorar as pesquisas, só falto sentar e fazer o dever por eles. E não faço porque lá na escola que  meus filhos estudam eles não deixam eu ir e fazer a prova no lugar deles.  Absurdo isso, né? Ia facilitar horrores se eles deixassem…

Depois tenho essa coisa chamada hipertireoidismo. Que isso já não é doença, é uma coisa, um encosto, um treco ruim. Tem dia que se eu rezasse no sentido literal da coisa, ia fazer uma petição pra saber, em outra encarnação, no calo de que santo eu pisei! Só pode. Pensei que eu tinha colado chiclete na mesa da Santa Ceia, mas não foi isso. Isso ia ser pouco pra tamanha reação. Tem que ter sido algo mais dramático, como jogar pedra na cruz ou coisa assim. Tô pesquisando. Quando descobrir eu conto!

O treco faz você sair da cama (não acordar, porque dormir é luxo, coisa pra quem tem tempo e saúde, o que definitivamente não é meu caso) cansada e irritada.  Mas REALMENTE cansada e irritada! E ir deitar (já falei que dormir é luxo?) ainda mais cansada e irritada, apesar de você ter duvidado de manhã que isso seria possível. E ainda tem sempre um infeliz pra perguntar: Mas tá cansada de que? De viver, meu filho… de viver!

Segunda feira fui dormir já era terça. 3:30. Isso foi a hora que o sono finalmente bateu e eu apaguei tv, luz e o escambau. Mas a mente não dá pra apagar, então devo ter rolado na cama mais uma meia hora, no mínimo, depois disso. Levantei as 5:05, pra tirar a marmanja de 11 anos e o marmanjão de 15 do sono dos justos. Tropeçando na minha própria sombra, tive que esperar eles pelo menos levantarem da cama, entrarem no banho, irem tomar café, em resumo provarem pra mim que acordaram de fato, porque já vi eles sentarem na cama e esperarem eu virar as costas pra dormir de novo… Nem acho que é de propósito, mas se bobear, eles dormem de novo mesmo.

Ai eu cochilei. Só cochilei, por toda hora eu abria o olho pra ver se já tinham saido do banho, terminado o café, colocado lanche na mochila, saido de casa… E isso vai até 6 e tal da manhã.E ai, silêncio, e sono pesado. Mas alegria de pobre dura pouco. Lá chega minha ajudante pra me avisar que a carona pra ir as compras já estava me esperando. Eram umas 9 horas, pouco mais, pouco menos… Pelo meu sono, devia ser um pouco menos.

Ai fui fazer compras. Eu moro no cafundó do judas, e tudo por aqui é caro. Então faço compras num atacado na cidade vizinha. A sorte é que o Santo Márcio do Senhor (marido da Santa Ângela do Senhor) é meu pastor e motorista (do carro que não é meu, mas quem está preocupado com detalhes! Deixa eu fingir que sou chique e tenho motorista particular, tá???!), e nada me faltará. Tá lá ele firme e forte pra pegar as coisas pesadas pra colocar no carrinho, me ajudar pegando o que ele já sabe que eu compro todo mês, passar as compras no caixa enquanto eu pego os itens-de-ultima-hora-que-esqueci-de-colocar-na-lista-e-só-deus-sabe-como-lembrei-na-boca-do-caixa…. Óbvio que é só entrar no carro preu lembrar de uns 5 outros itens esquecidos, mas deixa quieto que eu já reclamo demais!

E vamos pra casa, sem café da manhã, beliscando uma batatinha, sabendo que ao chegar em casa ainda há horas me separando do almoço, já que como mãe zeloza que sou, espero eles chegarem pra comermos juntos. Difícil é convencer a minha tireóide que ainda não tá na hora do almoço. Se bem que com a falta de apetite  (que é diferente de falta de fome) dos últimos dias, difícil foi mesmo convencer meu corpo que eu tenho que comer.

3a feira é de prova à tarde do filho do meio e ele só chega em casa depois das 19.  Então é só a caçula, que finalmente chega 13:10. Se joga no sofá, morgada. Ai vai pra mesa almoçar, morgada. E demora… demora… demora… ai vem pra sala e vai pro sofá. Apela, choruminga, diz que vai fazer o dever no sofá que é mais confortável. A mãe, trouxa, deixa. Não demora muito pra ela cair no sono. E pra mim, a mãe surtada louca insana de plantão, ter que começar a gritar. Teve varias falas mansas antes, muito por favor, a mamãe tá pedindo, não tá dando certo, senta na mesa filhinha. E ai vieram os gritos. Tá doendo minha garganta até agora. E se não passar, apesar da relação causa-efeito do grito-dor, tenho que cogitar o tapazol, e correr pro médico. SACO, SACO, SACO! Gritando, pra não perder o costume!

O dever mais urgente era em 3 partes. E tinham outros 4  deveres menos urgentes. As 19 horas (COMO ASSIM JÁ SÃO 19 HORAS. Tenho que ajustar meus gritos para cada 30 minutos pra não perder a noção da  hora desse jeito!) a segunda parte do primeiro dever ainda estava pela metade.  O plano era fazer as 3 partes do dever pro dia seguinte, adiantar um ou dois dos outros 4 deveres,  e estudar pras provas de quarta feira. Vocês fizeram isso?  Terminaram os deveres? Estudaram? Nem ela… E eu batendo cabeça na mesa do computador, na parede, no objeto pontiagudo mais próximo de mim, e por aí vai.

O pior é a cena:

Interior. Casa. Mesa de estudo. Filha olhando pro teto (e praticamente cochilando). Mãe fala com voz mansa escondendo a irritação tireoidiana:
_ Filha, faz o dever!
_ Tô fazendo – diz a filha

_ Não amor, você tá olhando pro teto.
_ Tô pensando na conta.
_ Qual a conta?
_ Essa.
_ Qual? De repente a mãe pode ajudar.
_ Não pode.
_ Filha, se você está empacada numa conta, deixa eu tentar ajudar…
_ Ai! Ai! VIU? PERDI A CONTA. Agora vou ter que pensar tudo de novo.
Interior. Casa. Mesa de estudo. Filha olhando pro teto. Mãe batendo a cabeça na parede.

Ou então:

Interior. Casa. Mesa de estudo. Filha praticamente joga o livro pra mãe e fala:
_ Dita pra mim por favor?
_ Onde? – diz a mãe, parando o que estava fazendo, e era ligeiramente importante, pra ditar e tentar ganhar tempo pra filha.

_ Aí.
_ Aí aonde, filha?
_ Aí óooooooooó. – Apontando onde
Mãe, engolindo em seco a raiva. _
Tá. Vamos lá: letra B. Abre chaves.
_ CALMA.
_ Tô calma. Letra B. Abre chaves. – Silêncio. O silêncio perdura. – Colocou chaves?
_ Tem anos. Porque não continua?
_ Porque você pediu calma, mas então tá ok. Continuando: 300 dividido (… = tempo )
abre colchete (….) 20 mais (…)
_
CALMA! (silêncio)
_ Já foi?
_ Não. Calma! (Silêncio. Mãe retoma o que estava fazendo antes pra ganhar tempo e pra não ficar nervosa com a espera infinita. Anos depois:)
Vai!
_ Você parou aonde, filha?
_ Nesse último que você falou.
_ Qual era? Eu me perdi. Demorou tanto que eu me perdi.
_ Ah, assim não dá, mãe… você não está prestando atenção no que está ditando!
Interior. Casa. Mesa de estudo. Filha olhando de novo pro teto. Quase cochilando.  Mãe batendo a cabeça na parede. De novo!

E por aí vai. Eu posso estar exagerando mas… nah… não estou exagerando. É assim mesmo. Só omiti o que acontece depois de bater minha cabeça na parede:  eu perdendo a calma e gritando com toda a força da minha tireóide, que já tomou a garganta e é o que me comanda agora! Mas logo me arrependo, tento explicar porque perdi a calma e mostrar como a cena era surreal. Não funciona, e vamos pra próxima cena!

Eu sei que ela está cansada e irritada, e é o primeiro ano estudando de manhã, em uma escola nova e difícil, bem mais difícil que a anterior, que a escola é longe e ela passa muito tempo na condução, que é o grande salto do antigo primário pro antigo ginásio, que… que… que… EI? Dá pra alguém pensar em mim também e saber que eu estou cansada, doente, com minha mãe no hospital, cheia de dívidas, desempregada, posando de mãe zeloza e … e… e… Pois é, primeira regra da maternidade: na mãe, ninguém pensa. Agora dorme (ou não dorme) com um barulho desse!

Ai eu tiro a TV. Nem por castigo de fato, mas porque como ela vai ver TV jantando se não terminou nem o dever do dia seguinte? Aí ela chora, diz que é muito infeliz, que vai ter que comer sozinha (e eu estou do lado, mas eu sou fantasma, vocês sabem… só pareço que estou aqui!), que ela está muito cansada, que ela … são tantos elas numa mesma frase que eu fico meio tonta!

Ai são 20:00 e eu estou cansada. Digo que já tinha combinado que estou a disposição, salvo casos especiais, até as 18:30 pra ajudar no dever, depois disso vou ver algo pra janta e descansar porque meu pé fica inchado essa hora e dói. Ai ela desaba, diz que não consegue terminar sozinha, que ninguém ajuda, que eu só brigo com ela, que… que… que…  E nisso o do meio já chegou da prova à tarde e só coloca lenha na fogueira. Ela manda ele calar a boca. Ele diz vem calar. Aparta, aparta que é briga. E era mesmo!

Ai eu dou o braço a torcer. Aí eu ignoro o pé inchado de ter passado a tarde toda sentada ou em pé perto dela. E  lá vou eu, ajudar a pelo menos terminar o dever urgente. Esquece os outros.
_ Terminou? Ufa… agora arruma o material e dá pelo menos uma lida na matéria da  prova porque não vai dar tempo de fazer outro dever nem estudar de verdade, tá?
_ Tá.

Pausa pra arrumar o material quase 22:00. E  ela me da o liquid paper (corretivo, branquinho, já se decidiram como vocês chamam isso?) preu fechar porque a tampa não encaixa mais. E tem quilos de corretivo na tampa (o mistério é como ela consegue fazer isso. Acho que ela vira o treco semi aberto pra ver o quanto cabe na tampa… só pode!), e eu vou sem reclamar cutucar com palito de dente e o palito quebra. E eu sujo minha roupa, minhas unhas que finalmente fiz essa semana, meu óculos de sol novo (valeu, Bel pelo óculos novo! E valeu filha… eu sempre quis um óculos branquinho!), meu copo, minha coca-cola, meu cigarro e minha paciência. Minha paciência em especial. Ela tá branquinha de liquid paper até agora.

Pausa de novo pra gritar com o do meio, que deitou na minha cama pra ver TV enquanto jantava (afinal, ele fez o dever… mas nada me tira da cabeça que chutou tudo! Ou ele é o novo recordista de maratona de 10 exercícios de física em menos de 10 minutos! 1 minuto por exercício, tem que ser um record!) e caiu no sono, e não ouve se eu não gritar, e não arrumou material, e não separou uniforme, e não mais uma porção de coisas que esqueci agora mas qualquer hora dessas me lembro!

E voltamos à caçula. Ela se arruma pra dormir, deita na cama com o livro e quando eu vou apagar a luz momentos depois, porque ela para de me responder quando eu chamo, adivinha? Adivinha? Tinha outro livro no meio do livro de geografia. Céus, é o truque mais velho da história! Ou da geografia, vocês escolhem. Eu fazia isso. Minha irmã fazia isso. Como ela, éramos  excelentes leitoras e  péssimas estudantes de geografia. Como não previ? Como não fiquei do lado pra ver se ela estava lendo o que tinha que ler? Santa incompetência, Batman. Mas peraí, eu não tenho prova amanhã! Eu sei (agora, mas isso é só um detalhe) a matéria de geografia. Eu já passei de ano, o que equivalia ao 6º ano de hoje tem … muitos anos. Então porque diabos eu me sinto culpada???? Quando é que eu vou aprender que se ela não se tocar da importância da escola, não sou que que posso enfiar isso na cabeça dela? Que se ela não tem responsabilidade (ainda que seja porque ela está um caco de tão cansada e só se passou um bimestre!), não sou eu que vou ter no lugar dela? Que certas coisas são “wake up call” e ou vem de dentro ou não vem nunca? Aprendeu, Adriana? Aprendeu?

Acho que não… são mais de meia noite e eu vou arrumar o lanche  deles, dar uma geral na mesa de estudo (e aposto que vou encontrar vários itens que deveriam estar na mochila, e eles perdem ponto quando não levam material completo!) e colocar o relógio pra despertar as 5. É que amanhã tem mais aventuras no paraíso me aguardando! É sempre um padecimento bem pertinho de você!

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3 respostas a Padecer no para o que?

  1. lucia diz:

    Minha amiga!

    A única coisa que eu lamento é não ir pro Céu!
    Céu é lugar de mãe…. e só dela!

    Decidi não ter filhos desde muito cedo. Atenção para o detalhe: Não me arrependi!
    Eu sou muito fraca … não aguentaria esse tranco!

    Na minha família , todos tem muitos filhos… Tem até uma que teve 5 e adotou 4, pode? rsrsr..

    Mas… Parabéns!….É DELICIOSA a forma como você escreve!

    .

    • Delícia, né? Ontem eu fiquei até quase 1 da manhã passando a caneta do trabalho da sem vergonhinha, porque se ela faz a caneta são litros de liquid paper (corretivo, branquinho, etc) e o trabalho fica nojento, se ela faz a lápis tem que passar a caneta depois e além deu ficar com dó dela escrever 2 vezes, quem disse que dá tempo? Então lá vai a mãe otária passar por cima da letra dela, o que é muito mais cansativo que simplesmente escrever, e apagar, e grampear e passar fita colorida pra ficar bonitinho e cobrir os grampos…
      Não me arrependo não, mas ainda estou procurando o tal do paraíso até hoje, depois de 18 quase 19 anos que o mais velho nasceu… É propaganda enganosa geral. Tô quase acionando o procon! 😛 🙂 😛 😉

  2. lucia diz:

    hahahaaha!
    Tá aí… é um bom motivo sim! Sem dúvida nehuma, é propaganda enganosa!

    Agora, arriscar-te-ias a dizer isso pra quem está começando a vida agora????…. hahahahaha! Serias linchada, na certa, porque , no fundo, todas as jovens sonham com esse “padecer no paraíso” , por incrível que pareça!

    Brincadeirinha, amiga!

    Tudo , no fundo, tem seu lado bom e seu lado ruim! É A VIDA!

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