Not so good…

As vezes eu tenho a sensação que boa parte das minhas queixas é só #mimidri (a minha versão pessoal do #mimimi : essa onda de reclamação vazia de quem não tem mais o que fazer, só reclamar…). Afinal eu não só já estou medicada como os últimos exames comprovam que os remédios estão funcionando.  Então vez por outra eu caio no conto do vigário, ou melhor, no conto do médico de que meus sintomas ‘estão só na minha cabeça’ e eu estou é muito nervosa. E se estou nervosa a ponto de imaginar sintomas, dou um passo na direção de me padronizar nessa sociedade que sobrevive a base de ansiolíticos. Vai ver eles estão certos e eu, totalmente errada. Ou não.

Essa introdução foi pra narrar meu dia, e começou tarde e tranquilo. A Ângela preferiu tirar o feriado ao invés do sábado (ela normalmente troca) mas a casa estava cheia, e os próprios meninos colocaram o mac and cheese no forno. A Letícia resolveu arrumar a cozinha depois que eu lavei a louça de ontem a noite, enquanto os meninos trocavam idéias. Os cachorros estavam tranquilos e eu fui sentar lá fora na varanda, lamentando por não ter nem um solzinho pra me aquecer, enquanto meu marido estava no computador. Mais tranquilo que isso só uma ilha deserta comigo balançando numa rede. Tranquilona!

Foi aí que a Letícia, varrendo a cozinha, achou um comprimido no chão e veio me trazer.  “Mãe, achei isso no chão. Vou jogar fora, tá?”. Fiquei olhando o comprimido tentando reconhecê-lo e parecia um tapazol 5 mg. Hum, pensei… devo ter tomado um a menos ontem.  Odeio quando na farmácia só encontro o Tapazol de 5 ao invés do de 10, porque 4 minúsculos comprimidos sempre dão um jeito de pular da minha mão e cair no chão. Normalmente noto, mas talvez ele tenha caído ontem, e como logo depois de tomar os remédios eu fui pro SUS com a Ângela, ninguém arrumou a cozinha depois disso, não vi. E não era de nenhum dia anterior porque minha casa é bagunçada mas limpinha e a cozinha é varrida todos os dias, então só podia ser de ontem.

Dei de ombros. ok, tomei 15 mg de tapazol ontem ao invés de 20. Grandes coisas. Não vou morrer por isso, certo? Foi aí que uma micro retrospectiva do dia me veio como uma onda gigantesca na praia: E hoje? Eu tomei os remédios?

Fiquei segurando a caixa tentando me lembrar… e não consegui. Tenho sentido muito orgulho da minha concentração recém conquistada a base de muita leitura e muita escrita. Tenho resenhado até séries de televisão (no outro blog) pra manter minha mente pensando o tempo todo, e fazendo conexões o tempo todo e tem funcionado. Mas a memória ainda é inexistente. Sei como foi meu dia ontem porque escrevi sobre ele assim que cheguei, mas os detalhes já me fogem…

Eu continuava calma, só curiosa. Tomei ou não tomei meus remédios? Normalmente é a primeira coisa que faço quando acordo, mas como a rotina estava modificada (sem Ângela e com Marido e Filho mais velho em casa) eu não tinha certeza. Achava que sim, mas não tinha certeza.

O Atenolol funciona perfeitinho pra mim. Meia hora depois de tomar meus batimentos cardíacos tem caído pro normal baixo (entre 60 e 70  e poucos bpm) então a melhor forma de tirar a prova dos nove era tirar minha pressão e aferir os batimentos. Se estivessem baixos eu teria certeza que tomei. Se estivessem um pouco mais altos que isso, eu teria que continuar forçando a memória pra lembrar.

Peguei o aparelho e medi. Eu realmente não esperava o que saiu no resultado, tanto que medi de novo… A pressão estava ótima, 11 por 7.  Mas meus batimentos estavam em 120. Na segunda medição, 118.

Foi um daqueles instantes em que o chão fugiu debaixo dos meus pés, por vários motivos.

Primeiro porque eu tinha esquecido de tomar os remédios. Esse era o mais bobo dos motivos e bastava um copo d’água e colocar os comprimidos pra dentro pra resolver essa parte.

Eram os outros motivos que me incomodaram.

Um deles era que eu ainda precisava, MESMO, do beta-bloqueador. Sem tomá-lo, e em um dia calmo, meu coração estava acelerado. Não no limite, alto pro repouso, mas realmente acelerado.  Eu não tinha feito NADA exceto lavar 2 pratos e alguns copos e talheres, então nenhum esforço, mesmo que mínimo, justificava aquilo.  Toda a minha alegria de ter podido reduzir a dose do remédio era falsa e relativa. Ainda estava longe o dia que eu poderia parar de tomar o remédio pro coração.

E depois, e talvez principalmente, era como aquilo tinha sido imperceptível. Segundos antes de medir a pressão eu estava sentada na varanda pensando na vida e fazendo um agrado em um dos meus cachorros.  Não foi nervoso ou aflição que me fez ir aferir os batimentos, mas pura curiosidade. Não houve sequer um sobressalto emocional, ou uma preocupação. Era um procedimento de rotina pra evitar que eu tomasse os remédios em dobro e não era a primeira vez que usava essa técnica pra tirar a dúvida. Eu estava extremamente calma.

Também não sentia nenhuma dor no peito ou palpitação. Isso pode parecer uma boa coisa, mas a palpitação é o sintoma da taquicardia. A gente percebe o coração batendo acelerado, e pode tentar se acalmar (mais que aquilo?) e tomar uma providência. É como ter febre ao se ter uma infecção: sem a febre, podemos ficar doente por dias, meses, antes de perceber que há algo errado com o nosso corpo. É ruim ter febre, mas muito pior não tê-la.

O fato é que eu não sentia nada. Se ao invés de me trazer um remédio que achou no chão, minha filha tivesse ido provocar os irmãos e causado uma briga, ou um outro aborrecimento mesmo que simples e cotidiano, pra quantas batidas teriam pulado meu coração?  E tudo isso sem nem um único sinal de que ele estava batendo além da sua capacidade regular…

Não estou nervosa ou preocupada. Tomei o remédio e agora já está tudo normal. A mesma pressão, e os batimentos em 72.  Mas criou-se um… incomôdo, na falta de palavra melhor, de saber que preciso arrumar técnicas mais eficientes de me lembrar dos remédios, e tenho que voltar a medir os batimentos de forma mais regular, como eu media quando eu fui diagnosticada.

E preciso parar de achar que estou quase boa. Eu só estou bem medicada.

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2 respostas a Not so good…

  1. JOANA diz:

    Bom dia Dri,

    rsrsrs, você é maravilhosa com essas cronicas do nosso verdadeiro e real – cotidiano. Neste momento que acabei de acordar, não por estar com insônia, mas por ter ido dormir tarde, então só tomei o remédio agora 11h e agora mesmo tomei os outros dois, e aqui também esta frio então não havia razão para as minhas mãos estarem suando.
    Eu fiquei uns tres dias sem tomar a fluoxetina porque eu estava sem a receita para comprar e foram 3 dias ruins, meu marido pediu para que eu nunca mais deixasse de comprar, apesar de que fui recomendada a procurar as causas dessa ansiedade toda pois estavamos tratando somente o fim do problema.

    Quanto ao esquecimento Dri, isso acontece será que tomei será que esqueci, então resolvi deixar fora da caixa o envelope que eu abro e já aconteceu de realmente não lembrar que tomei da mesma forma que você reagiu eu reagi. E o esquecimento a Dra. disse que não era causa do remédio e nem da hiper. As alergias, o cansaço, dormindo o dia inteiro, perdendo o interesse pelas coisas cotidiana, a queda de cabelo, e ela disse que se o remédio fosse o problema ele teria dado no inicio e já havia muito tempo que eu tomava, portanto ela descartou essa possibilidade.
    Seja bem vinda ao clube dos ” que dia melhor com um ansiolitico”. Não é pior do que ficar sem tomar, vou fazer como ” 1 contra 100″, vem, vem, vem, vem para a galera, rs. É tudo brincadeira para deixarmos mais leve a nossa condição de depender de rémédios e contribuir para o enriquecimento da indústria farmacêutica.

    • Volto a questão de que se não estou esquecida pelos remédios/doença, então pode me enterrar que já morri. Prefiro continuar pensando que sua médica está errada, e que não listam problemas de memória como sintoma do hipertireoidismo nem fazem estudos para stress pós traumático com beta-bloqueadores a toa. Mas é irrelevante: eu culpo os remédios e a doença e pronto (ou isso ou estou de caso com um alemão, um tal de Azheimer, e já me esqueci…)

      De qualquer forma meu ansiolítico ainda está intocado na caixinha. Tenho a impressão de que no dia que começar a usar, eu não vou querer parar e como no seu caso (e no nosso aqui com a Ângela) os outros não vão me deixar parar! Então nem começo. Ou pelo menos, protelo o começo. Desde que trouxe eles pra casa não tive nenhuma insônia grave, só a regular mesmo, então ainda não me vi na situação de TER QUE TOMAR. E mesmo ontem, com o coração a 120, não fiquei nervosa, só chateada mesmo. Tomei o betabloqueador e pronto, acabou-se o problema.

      E na verdade, o evento ajudou a protelar ainda mais. Os sintomas não estão na minha cabeça, mas no meu corpo. Eu estava calma e com taquicardia, então não era porque estou “nervosinha”, a despeito dos comentários maliciosos de médicos e familiares! 🙂 🙂 🙂

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