Me esvaindo (ou A remissiva inveja do pênis)

Rapazes, lamento: papo de mulherzinha mais uma vez.  É que vocês acham que é fácil ser mulher, e eu garanto: não é.  Luis Fernando Veríssimo diz que Freud só inventou essa história de inveja do pênis porque era homem e num intrincado raciocínio que começa constatando que o feto inicia sua jornada feminino e só depois se torna, em cerca de 50% dos casos, masculino, ele faz a melhor crônica feminista que já li e que conclui que o homem inventou o poder falocrata, uma história paralela de fantasia, justamente por inveja de não ser mulher.

Lindo. Mas no momento eu assino com Freud e morro de inveja do pênis e da simplicidade que vem no pacote. Pra começar, os problemas de tireóide afetam muito mais mulheres do que homens. Chame de defeito de fábrica, ou do que quiser, mas é a tireóide feminina que simplesmente não sabe como reger o metabolismo, e tende a exagerar ou suprimir. Tá certo que há outros males que tem uma incidência maior em homens, mas hoje eu trocaria um mal por outro de olhos fechados.

E se você somar problemas de tireóide com outro “”mal”” que é exclusivamente feminino, a menstruação, aí a porca torce o rabo e grita por arrego umas mil vezes seguidas.

Hipertireoidismo espaça os ciclos e diminui o volume de perda sanguínea, o que talvez se relacione com a tendência a tromboembolismos, ou seja, não é a hemorragia que é uma questão, mas justo o contrário, há um risco de excesso de coagulação sanguínea. Ou não, e são só eventos paralelos, mas de qualquer forma, o normal no hipertireoidismo é o tal espaçamento do ciclo e a perda do volume.  Normal, mas não dado, certo, regra imutável.

Além disso, tem o problema do medicamento…  O Tapazol, assim como todas as drogas antitireoidianas, possuem efeito anti-vitamina K, ou seja, são ao menos ligeiramente anti-coagulantes. Então o simples fato de estar sob medicamento já causa alterações no comportamento do volume e perda de sangue, em um corte eventualmente, mas aparentemente com certeza (Ê contradição interna… É aparente ou com certeza, Adriana? Ambos… ambos!)  na menstruação.

Conforme o Tapazol faz efeito, há a possibilidade de remissão do hipertireoidismo, causando o desejado eutireoidismo medicamentoso, mas também há a possibilidade de simulação medicamentosa do hipotireoidismo. Em dado dia, ou época, ou de forma mais constante (que exigiria uma mudança na dosagem do medicamento que só o endocrinologista pode fazer), há sintomas de hipotireoidismo, cujo problema hematológico possível é a tendência a hemorragias. É raro, pouco, normalmente não significativo em termos de cortes (mas uma preocupação por exemplo em cirurgias!), mas relacionado de forma direta ou não, há um aumento da quantidade de menstruações (diminuição do período de intervalo entre os ciclos) e na quantidade do volume de sangue a cada menstruação.

Essas coisas todas já são desagradáveis por si só, insuportáveis mesmo… quando vem nessa inconstância, alternando o comportamento esperado em uma disfunção ou na outra, sua vida vira uma caixinha de surpresa que cada vez que você abre tem uma novidade, e normalmente nenhuma boa.

Num momento too much information, meu ciclo sempre foi razoavelmente irregular, então nunca fui de ficar muito preocupada em anotar certinho e fazer um controle muito em cima. Agora faço, não porque eu tenha alguma esperança de achar lógica no caos, mas porque em algum momento essa informação pode se tornar relevante pra uma decisão médica, então anoto. Além disso, tinha uma coisa com a qual eu podia contar: durava 5 dias, e tinha um comportamento regular: pouco – muito – pouco – fim. Agora, a única coisa que eu posso contar é que eu não posso contar com nada.

Numa passada geral, olhando pros últimos 3 meses, tenho o seguinte quadro:

10 dias menstruada – intervalo de 31 dias
4 dias menstruada – intervalo de 23 dias
4 dias menstruada – intervalo de 20 dias
13 dias menstruada, e contando…  (depois de 10 dias, parecia que ia parar e vupt, cólica e aumento do volume como se estivesse começando um novo ciclo).

O que meu médico diz disso? É a tireóide. O que é preu fazer a respeito? Nada.  Posso cortar os pulsos para aliviar? Melhor não, tem o risco de sangrar demais…

Sem contar, que embora não seja todas as vezes, a cólica quando vem é de tacar a cabeça na parede… Fala sério que algum homem tem inveja disso, de fato? Consciente ou inconsciente, não importa… Essa coisa da maternidade também é superestimada. Me chamem de insensível e fria, tô nem aí, tenho os hormônios pra me desculpar se eu passar da conta: mas por mais que eu olhe, revire a questão, ache exemplos na antropologia, deixe meu lado maternal falar alguma coisa, faça uma discussão psico-social da questão eu sempre volto ao mesmo ponto: a crônica do Veríssimo é linda, mas certo mesmo estava o Freud: ai ai, que inveja do pênis…

***

Homem, mulher, essas coisas
Luis Fernando Veríssimo
O feto começa feminino, depois é que são acrescentados os atributos, digamos assim, masculinos. Por isso nós, homens, temos mamilos, e não sabemos o que fazer com eles. Quer dizer: a história biológica do ser humano é exatamente o inverso do seu principal mito de criação, em que a mulher sai de dentro do homem. O mito é não apenas um desmentido do fato, e do feto, como uma apropriação masculina de um feito feminino. Ao pôr o primeiro homem para dormir e retirar sua costela e produzir a primeira mulher, Deus fez uma paródia de parto, reivindicando para os homens, no caso Ele e Adão, a primazia do ato de dar vida. E com anestesia, um detalhe que não deve escapar às mulheres, depois condenadas por Ele a padecer de todas as dores da procriação enquanto o homem, responsável por tudo, só era condenado a folhear “Caras” antigas na sala de espera. Todos os mitos desde os inaugurais, como toda a cultura humana, têm sido masculinos, num contraponto ressentido com a história biológica, verdadeira, feminina, da espécie. Pura inveja.
Freud, que (sendo homem) era suspeito, inventou que a mulher tem inveja do pênis. O homem é que não agüenta a idéia de não estar aparelhado, como a mulher, para se integrar aos grandes dramas reincidentes da Natureza, ovulando de acordo com as fases lunares, gestando, parindo e amamentando filhos e identificando-se com os ciclos de fertilidade da Terra, sentindo as variações de clima e de idade com mais intensidade, e ainda encontrando tempo para ir ao cabeleireiro e dirigir empresas. Enfim, participando. Enquanto ele fica de lado, como um penetra, esperando em vão que a vida o chame para as suas graves verdades e obrigado a inventar uma história paralela de fantasia. Se você concordar que o pênis é o órgão que rege esta história paralela, e que a civilização se explica como uma angústia de potência, o que Freud quis dizer era que a mulher invejava o poder falocrata, ou justamente o que o homem inventou para compensar o fato de não ser mulher. Outro mito usurpador.
Esta manifestação não é paga, não é encomendada e não, não estou pensando em mudar para o outro sexo. É que sempre fui simpatizante.
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2 respostas a Me esvaindo (ou A remissiva inveja do pênis)

  1. Pingback: Enquanto isso, ainda em um lugar não muito distante… « The Middle of Nowhere

  2. Ana diz:

    Meudeus. Vou pegar seu texto como testemunha. Só quem passa, sabe.
    bjs, parabéns, gostei do espaço!

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